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Lutos migratórios: por que morar fora mexe tanto com a gente?

  • Foto do escritor: Camila Andrade
    Camila Andrade
  • há 7 dias
  • 3 min de leitura

Atualizado: há 17 horas

Tem pessoas que imaginam que fazer intercâmbio ou começar uma vida no exterior significa viver constantemente empolgação, liberdade e descobertas. E claro, existe uma parte linda nisso tudo, ao mesmo tempo, há algo sobre o qual pouca gente fala com profundidade: os lutos migratórios. E não, “luto” aqui não significa apenas morte. Na psicologia, o luto também aparece quando nos afastamos de pessoas, lugares, rotinas e referências importantes para nós. Por isso, migrar envolve muito mais do que pegar um avião e começar uma nova vida.

Quando alguém muda de país, não muda apenas de endereço, mas também de rotina, de idioma, de vínculos, de identidade e até da forma como se percebe no mundo. O psiquiatra e professor Joseba Achotegui ficou conhecido por estudar justamente os impactos emocionais da migração e organizou os chamados 7 lutos migratórios: perdas emocionais muito comuns na experiência de viver em outro país. O primeiro luto costuma ser o da família e dos amigos e talvez seja um dos mais difíceis. A distância faz a pessoa perder aniversários, almoços de domingo, encontros espontâneos e até aqueles momentos simples do cotidiano que antes pareciam normais. As videochamadas ajudam, mas também lembram constantemente da distância. Pode, inclusive, existir culpa por estar longe. 

Outro luto muito presente é o da língua. Falar outro idioma vai muito além de conseguir se comunicar. Existe diferença entre “saber falar” e conseguir se expressar exatamente como você gostaria. Tem pessoas que podem sentir que perderam parte da espontaneidade, do humor e até da própria personalidade. Fazer piadas, explicar emoções ou participar naturalmente de uma conversa exige esforço e esse desgaste emocional costuma ser invisível para quem vê a experiência apenas de fora.

Existe também o luto pela cultura, que aparece no jeito como a vida social funciona no novo país e envolve valores e regras sociais, formas de se relacionar, humor, costumes, códigos sociais e também o jeito de demonstrar afeto e se comunicar no dia a dia. Aos poucos, começa-se a perceber diferenças nessas dinâmicas, nas normas “não ditas” da convivência e na forma como as relações se constroem e com o tempo, algumas pessoas podem não se encaixar totalmente naquele contexto, ao mesmo tempo em que também já não se sentem completamente iguais à forma de viver que tinham antes. Já o luto pela terra está ligado ao lugar em si. Ele passa pela paisagem, clima, cheiros, comida local, luz, cores, ambiente, ruas, natureza e cidade como experiência concreta.

Outro ponto que pega muita gente de surpresa é o luto pelo status social. Tem pessoas que eram extremamente reconhecidas no Brasil e, ao chegar em outro país, precisam recomeçar praticamente do zero. Em alguns casos, o diploma não é validado, em outros, a experiência anterior perde valor social ou econômico. Há quem aceite trabalhos muito diferentes da própria trajetória ou passe a se sentir menos competente do que antes e isso mexe profundamente com autoestima, pertencimento e identidade.

O sexto luto é o do grupo de pertencimento. No nosso próprio país, entendemos naturalmente as referências sociais: sabemos como agir, como falar, como interpretar comportamentos e situações. Em outro país, até fazer coisas simples pode gerar insegurança e você começar a se perguntar constantemente se foi educada, se falou algo estranho ou se foi compreendida da forma certa. Além da adaptação cultural, tem pessoas que enfrentam preconceito, estereótipos ou a sensação de serem vistas para sempre como “estrangeiras”, mesmo depois de muitos anos vivendo naquele país. Esse estado de atenção permanente pode gerar um desgaste emocional enorme, porque a pessoa sente que está tentando se adaptar o tempo inteiro. Achotegui também fala sobre o luto relacionado à segurança física e à vulnerabilidade. Esse aspecto aparece de forma mais intensa em contextos migratórios difíceis, envolvendo insegurança jurídica, medo, instabilidade e sensação de sobrevivência constante. Em algumas experiências migratórias, principalmente as marcadas por vulnerabilidade extrema, a adaptação também passa a envolver questões diretamente ligadas à segurança e à sobrevivência. Por isso, morar fora não é apenas “se acostumar” com um novo lugar. A adaptação em outra cultura é um processo emocional profundo. E não, isso não significa que viver no exterior seja apenas sofrimento, também não significa que seja menos bonito ou transformador. Dá para amar viver em outro país e, ao mesmo tempo, sentir dor, saudade, cansaço e confusão emocional.

Compreender que existem os lutos migratórios ajuda as pessoas a pararem de se sentir erradas por não viverem uma adaptação perfeita, acreditando que deveriam estar felizes o tempo inteiro ou achando que todo mundo se adapta melhor. Eles nos mostram que várias dessas emoções fazem parte de uma experiência humana extremamente comum.

 
 
 

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